escrito por Caroline Capitani
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Em 2026, a velocidade das transformações tecnológicas já não surpreende, ela pressiona. O verdadeiro desafio para as organizações deixou de ser adotar novas tecnologias e passou a ser decidir como, onde e por que inovar.
Muitas empresas ainda confundem inovação com a simples adoção de ferramentas emergentes. O resultado é um movimento reativo, guiado por tendências de curto prazo, que consome energia, gera visibilidade momentânea, mas não constrói valor sustentável nem prepara o negócio para o futuro.
Para avançar com clareza neste cenário, três elementos tornam-se centrais: liderança ambidestra, cultura organizacional e escolhas conscientes de portfólio.
Nem toda iniciativa inovadora constrói futuro.
Projetos de melhoria contínua, focados em eficiência, otimização e previsibilidade, são essenciais e, em muitas organizações, representam entre 85% e 90% das iniciativas. Eles sustentam o presente, mas não garantem relevância no longo prazo.
A inovação estratégica, por outro lado, olha para o amanhã. Seu papel é criar novas curvas de crescimento, seja por meio de novos modelos de negócio, novas formas de capturar valor ou até novos mercados.
É aqui que entra a liderança ambidestra: a capacidade de equilibrar dois movimentos simultâneos:
Explotação do negócio atual, com disciplina e eficiência
Exploração do novo, lidando com incerteza, risco e aprendizado
Empresas reativas usam tecnologia para fazer o mesmo mais rápido. Empresas estrategicamente inovadoras usam tecnologia para fazer diferente.
Inovar em 2026 não é apostar tudo em uma grande ideia — é gerenciar um portfólio equilibrado de iniciativas. O modelo dos Três Horizontes de Inovação ajuda a orientar essas decisões:
Horizonte 1 – Defesa do core Foco em eficiência, margem e baixo risco. Métricas financeiras tradicionais são o principal critério.
Horizonte 2 – Diferenciação e expansão Oportunidades emergentes que ampliam o modelo atual, buscando crescimento acelerado, novos clientes ou novos mercados.
Horizonte 3 – Disrupção e futuro Iniciativas voltadas à criação de novos negócios. Aqui, o valor está no aprendizado, na validação de hipóteses e nos insights estratégicos, não no ROI imediato.
Um dos erros mais comuns é aplicar métricas de curto prazo do Horizonte 1 em iniciativas do Horizonte 3, interrompendo a inovação antes que ela amadureça. O papel da liderança é gerenciar essa tensão entre resultado presente e construção do futuro.
Tecnologia é ferramenta. Cultura é sistema operacional.
Organizações excessivamente orientadas a controle, previsibilidade e planejamento rígido tendem a travar a inovação, pois rejeitam exatamente o que ela exige: experimentação, incerteza e aprendizado com o erro.
Em 2026, muitas empresas precisarão migrar:
De uma cultura de aprovação, focada em evitar riscos
Para uma cultura de provocação, voltada a surpreender o mercado
Quando a cultura prioriza apenas conforto e manutenção do status quo, surge o chamado** paradoxo da manutenção**: acredita-se que se inova, mas apenas se refina o que já existe.
O dilema entre criatividade e governança é falso. O desafio real é saber onde aplicar cada lógica.
Na explotação, especialmente em iniciativas ligadas a IA, dados e automação no core business, responsabilidade significa governança, controle e confiabilidade.
Na exploração, a inovação exige ambientes protegidos, verdadeiras caixas de areia, onde errar faz parte do processo e o aprendizado é o principal ativo.
Separar esses contextos é essencial para inovar sem colocar a operação em risco.
Valor real gera mudança de patamar, não apenas barulho.
No Horizonte 1, o impacto aparece em métricas claras: custo, receita e eficiência.
Nos Horizontes 2 e 3, o valor está na velocidade de aprendizado, na criação de opções estratégicas e na preparação para uma nova curva de crescimento.
Quando uma iniciativa não altera a Curva S do negócio nem constrói caminhos futuros, estamos diante do chamado teatro da inovação: alta visibilidade, baixo impacto estratégico.
Nesse estágio, o papel da liderança muda profundamente.
O líder deixa de ser apenas um gestor de tarefas e passa a atuar como arquiteto social e curador de decisões. Seu foco deixa de ser controlar a previsibilidade e passa a ser gerenciar tensões:
Curto prazo versus longo prazo
Eficiência versus descoberta
Estabilidade versus transformação
Isso exige também uma gestão intencional de talentos, posicionando as pessoas certas nos horizontes certos.
Inovação sustentável começa — e termina — nas pessoas. Alguns pilares são inegociáveis:
Segurança psicológica, tratando o erro como aprendizado
Capacitação contínua (reskilling) como parte do trabalho
Diversidade de pensamento e conexões externas
RH como aliado estratégico, criando incentivos que valorizem tanto entrega quanto exploração
Em um cenário de mudanças constantes e pressão por resultados, inovar não será fazer mais — será escolher melhor. Com clareza estratégica, coragem cultural e liderança capaz de sustentar o presente enquanto constrói o futuro.